O Elemento Mediador Simbólico na Formação do Indivíduo



Artigo Nº 4-  série "A construção do Indivíduo pelo Símbolo" Teoria de Slavoj Zizek 

Joaquim Luiz Nogueira

O Elemento Mediador Simbólico na Formação do Indivíduo


(...) habitamos a ordem simbólica apenas na medida em que cada presença surge contra o pano de fundo de sua possível ausência[1]

Existe certa autorização sustentadora no indivíduo que funciona em tempo real, isto é, como já nos referimos anteriormente no capítulo 3, ela é uma espécie de “F5” muito usado nos programas de computadores para fazer atualizações. Trata-se de um tipo de sintonia com o ambiente ou contexto, cujas funções simultâneas são: construções e intervenções no sujeito.
Esta atuação se mostra a partir do relato da pessoa, principalmente nos argumentos expressados, que tendem para uma defesa heroica ou imaginária do fato ocorrido em tempo real. A interpretação do caso se processa de forma um pouco fantasmagórica, numa tentativa de se proteger da realidade e lutar contra o elemento gerador. “Á ordem estrutural sincrônica é um tipo de formador de defesa contra seu Acontecimento fundador que só pode ser discernido na forma de uma narrativa mítica espectral” (ZIZEK, 2015, p.97).  
A explanação do acontecido que ocorre no sentido da inventividade do indivíduo se movimenta em oposição à tentativa de atualização ou construção da pessoa pela projeção espectral. “(...) a própria narrativa desse Acontecimento não é nada além de uma fantasia para resolver o antagonismo/inconsistência debilitante da Ordem sincrônica /estruturadora” (ZIZEK, 2015, p.97).  
O mecanismo que ampara o sujeito em sua renovação, e que, para se conservar de forma atuante, ele não deve estar no mesmo grau, ou seja, deve estar fora do sujeito, pois, “a irreconhecível história fantasmática, (espectral), que sustenta efetivamente a tradição simbólica explicita, mas que, para ser operante, tem de permanecer forcluída” ZIZEK, 2015, p.73-74).
E neste sentido, o fato que provoca angustia no indivíduo, também não oferece condição para acomodar definitivamente a inovação trazida pela narração fantasmagórica, mesmo que tenha tido progresso, não se pode registrar a permanência naquele lugar, cuja projeção foi a responsável pela mediação de acordo com Zizek: “a história espectral fantasmática de um evento traumático que “continua a não ter lugar”, que não pode ser inscrito no próprio espaço simbólico criado por sua intervenção” (ZIZEK, 2015, p.74).
Mesmo que o relato fantasmagórico não consiga se efetivar no indivíduo, ele continua a equilibrar o sujeito de forma simbólica, isto é, sua aparência gera imagens e ideias que propiciam avanços: “sua presença espectral sustenta a tradição simbólica explicita” (ZIZEK, 2015 p.74).
O elemento mediador do indivíduo que Slavoj Zizek chama de espectro, no limite que não permanece integrado ao sujeito, ele se apresenta como uma visão eterna, que mesmo não agregado à pessoa, continua a intervir na realidade “na medida em que permanece não integrado ou excluído, continua a assombrar a história “real” como sua Outra Cena espectral” (ZIZEK, 2015 p. 74).  
Na medida em que aquilo que possui a capacidade da imortalidade, isto é, uma ficção que também argumenta sobre a realidade e pode modificar os resultados, cujos elementos desencadeadores fantasmagóricos, não possuem uma explicação que possa ser dada como resultado ou consequências de atos anteriores, segundo afirma Zizek mencionando Kant e Schelling:



Com respeito a noção de tempo como real, isso significa que existe um ato autêntico entre tempo e eternidade. Por um lado, um ato é como afirmaram  Kant e Schelling, o ponto em que a “eternidade intervém no tempo”, em que o encadeamento da sucessão causal temporal é interrompido, em que “alguma coisa surge-intervém do nada”, em que algo acontece e nada pode ser explicado como resultado ou consequência da cadeia antecedente (ZIZEK, 2015, p.98)

Neste caso, a postura, conduta ou atitude de um indivíduo se traduz como sinal de uma intervenção, cuja origem, também pode ser interpretada como uma abertura ou ponte, que permite a mediação de algo que é permanente: “Em suma o ato propriamente dito é o paradoxo do gesto atemporal/”eterno” de superar a eternidade, abrindo a dimensão da temporalidade/historicidade”. (ZIZEK, 2015 p.98).
Para entendermos a noção de tempo no ser humano, temos que ver o seu registro como uma espécie de represamento ou fotografia da retina, armazenada via memória. Estas se transformam em cenários ou perspectivas que se fixam como pontos objetivos ou lembranças vinculadas a seus contextos geradores.
E esses pequenos recortes que chamamos de cenários não possuem mais uma ligação direta com sua origem permanente, cuja atuação deste elemento externo instaurador e sua designação, podem ser denominadas, segundo Ernesto Laclau, como antagonismo, isto é, adversidade. Para Judth Butler, trata-se de um apego apaixonado:

Para entender esse ponto crucial, precisamos ter em mente que não existe “tempo como tal”, existem apenas horizontes concretos de temporalidade/historicidade, e cada horizonte é fundamentado em um ato primordial de forclusão, de “repressão” de seu próprio gesto fundador. Segundo os termos de Ernesto Laclau, o antagonismo é esse ponto da “eternidade” da constelação social definido por seu antagonismo, o ponto de referência que gera o processo histórico (...) Nos termos de Judith Butler, o “apego apaixonado”, talvez seja um candidato a essa “eternidade”. (ZIZEK, 2015, p.98).

Para Slavoj Zizek, trata-se de uma “constelação libidinal primordialmente reprimida/renegada que não é simplesmente histórico – temporal, pois sua própria regressão gera e sustenta os múltiplos modos de historização” (ZIZEK, 2015, p.98). Esta ideia de construção do indivíduo pela libido já foi  amplamente discutida com Jung no capítulo anterior, no momento, vamos apenas refletir sobre as denominações de antagonismo e apego apaixonado como elementos mediadores na formação do sujeito.  
Costumamos dizer que o cheiro de um café ao ser passado pelo coador desperta nas pessoas a irresistível vontade de tomar a bebida, que uma vez experimentada, pode ter a sensação de que a fragrância sentida anteriormente era melhor do que o líquido ingerido. Digamos que o mesmo acontece com a véspera de um acontecimento festivo, quando os sentimentos de expectativa são muito mais vigorantes, quando comparados com aqueles que ocorrem no evento.
Percebemos que há certo antagonismo entre o fato real e a expectativa anterior nos dois casos acima, sendo que, esta última, a situação de espera, conserva em si uma visão integradora, isto é, ela é carregada de possibilidades. Enquanto que a materialidade em si do café ou do evento, congrega a adversidade de elementos divergentes, portanto, a oportunidade da bebida e do acontecimento festivo se repetir está na evocação do aroma e na expectação que antecede cada evento importante para o indivíduo.
Neste aspecto, podemos dizer que certos aromas ou situações de espera, geram arrebatamentos exaltados que podem desencadear no indivíduo uma variedade de sentimentos, entre eles, carinho, afeto, amor, amizade, benevolência, simpatia e ternura. De outro lado, também provocam ciúme, avareza, desejo, fixação; etc.
E estes elementos acima são responsáveis pela mediação na formação do sujeito, mesmo que não integrem o corpo do indivíduo, eles participam por meio de intervenções, arbitrando decisões na medida em que surgem de forma planejada ou inesperada para a pessoa.
No entanto, o resultado do encontro entre a realidade, isto é, o fato concreto em si e a parte invisível, imaginada, fantasmática, sendo que, esta última, termina por direcionar as ações do indivíduo segundo Zizek: “A lição disso tudo é que, na oposição entre fantasia e realidade, o Real está do lado da fantasia” (ZIZEK, 2015, p.76).
O elemento mediador e ausente no indivíduo se conserva fora do contexto de tempo, mas se antecipa ao se representar como fator motivador de um fato ou evento. Ele se torna a fonte originadora que apoia e facilita a abertura para diversas tentativas do sujeito na busca da realização de objetivos frustrados anteriormente:

A “eternidade” não é atemporal no simples sentido de persistir para além do tempo, ela é, antes, o nome do Acontecimento ou do Corte que sustenta, que abre a dimensão da temporalidade como a série ou sucessão de tentativas fracassadas de aprendê-la (ZIZEK, 2015, p. 99).

O Psicanalista Slavoj Zizek chama os diversos insucessos de um indivíduo de traumas, experiências emocionais desagradáveis, que para ele, funciona também como algo eterno, já que o sujeito não consegue deter isto só no passado, pois o tempo da pessoa começa a girar em torno daquela comoção, na qual, a partir de abundantes formas, busca se conectar ao acontecido:

O nome que a psicanálise dá a esse Acontecimento/Corte é 0bviamente, trauma. O trauma é “eterno”, nunca pode ser propriamente temporalizado ou historicizado, é o ponto da “eternidade” em volta do qual o tempo circula – ou seja, é um Acontecimento accessível no tempo somente por meio de seus múltiplos traços. (ZIZEK, 2015, p.100).
  
É a incapacidade da mente do indivíduo em compreender o trauma que o sustenta. Se ele conseguir neutralizar este impacto, livrar-se desta perturbação, o resultado seria uma vivência do momento infinito, sem preocupação com o tempo:
Não existe tempo sem eternidade; a temporalidade é sustentada por nossa incapacidade de apreender/simbolizar/historicizar o trauma “eterno”. Se o trauma fosse temporalizado/historicizado de maneira bem sucedida, a própria dimensão do tempo implodiria/colapsaria em um Agora eterno e atemporal. (ZIZEK, 2015, p.100).

A historicidade de um indivíduo é sustentada porque ele tende a ser orientando pelos seus pontos traumáticos. O sujeito não consegue se romper deste círculo, assim, o momento perene “a Eternidade (...) é excluída para que a realidade histórica possa manter sua consistência” (ZIZEK, 2015, p.100).
Do ponto de vista do cristianismo, o indivíduo é orientado para apontar o sentimento do amor, que também se trata de um elemento passageiro e limitado pela morte do corpo, porém, provoca um fascínio e este evoca algo que vai muito além de qualquer materialidade. “No amor, nós escolhemos um objeto temporal finito que “significa mais do que qualquer outra coisa” e nos concentramos nele” (ZIZEK, 2015, p.100).
A escolha do indivíduo pela orientação advinda do eterno mereceu atenção de Immanuel Kant, citado por Zizek, ele enfatizou a qualidade perene da pessoa, mesmo antes da realidade terrena, ou seja, aquela que determina previamente via destinação, a sina do sujeito.

O último Kant articulou a noção do ato nominal da escolha por meio do qual um indivíduo escolhe esse caráter eterno e, por isso, antes de sua existência temporal, delineia de antemão os contornos de seu destino na terra. (ZIZEK, 2015, p.100). 

Desse modo, a libertação do indivíduo tem um grande progresso com o cristianismo, pois, novamente ocorre a transformação legítima e o sujeito pode se reinventar (arrepender ou perdoar) e outra vez sem perder o foco na eternidade.


Sem o ato divino da Graça, nosso destino permaneceria imóvel, para sempre fixado por esse eterno ato de escolha; a “boa nova” do cristianismo, no entanto, é que, em uma Conversão genuína, o sujeito pode “recriar-se”, ou seja, repetir esse ato e, assim, mudar e (desfazer os efeitos da) própria eternidade. (ZIZEK, 2015, p.100).

Outra inovação cristã está na transformação da via do amor, pois com este sentimento que existe no tempo transitório humano, temos uma ampliação da projeção entre o indivíduo e o seu semelhante, cujo altruísmo do sujeito pode desencadear uma espécie de transferência no sentido do objeto venerado, enquanto manter sua união com o mesmo. “No amor, nós escolhemos um objeto temporal finito que “significa mais do que qualquer outra coisa” e nos concentramos nele”. (ZIZEK, 2015, p.100).
Do ponto de vista oposto, a pessoa também pode se agarrar ao fato em que se acredita como original, por exemplo, seguir sua destinação, missão ou desígnio. Neste sentido, pode se suportar sofrimento e perseverar, pois a energia é vigorada com a presença do acontecimento primordial. Slavoj Zizek cita o povo judeu como amostra de uma conduta não simbolizada:

O paradoxo do Judaísmo é que ele se mantém fiel ao Acontecimento fundador violento precisamente por não o confessar nem o simbolizar: esse status “reprimido” do Acontecimento é o que dá ao judaísmo sua vitalidade ímpar; foi o que permitiu que os judeus persistissem e sobrevivessem durante milhares de anos sem terra ou tradição institucional comum. (ZIZEK, 2015, p.101).

Esta saída do indivíduo, no qual ele não permite revelar seu sentimento, ou seja, desde que nasce, incorpora uma verdade eterna e a segue fielmente, porém, esta se contrasta com a ação de se simbolizar. Nesta segunda opção, o sujeito confesso de suas fragilidades ou erro, passa ter a opção de escolha para continuar rumo ao seu objetivo.


Neste sentido, o indivíduo pode confessar seus erros e começar novamente de forma diferente sob a luz de outras possibilidades, num primeiro momento, parece como solução imediata, porém, o psicanalista Slavoj Zizek nos diz que o sujeito continua permanentemente aterrorizado por uma espécie de resíduo, que sobrevive ao ato revelador da pessoa.

(....) devemos chegar a conclusão inevitável que a psicanálise, longe de ser um modo confessional de discurso, implica a aceitação e a admissão de que todas as formações são para sempre assombradas por algum “resto indivisível”, uma “sobra” espectral traumática que resiste à “confissão”, ou seja, à integração no universo simbólico. (ZIZEK, 2015, p.101).

O elemento que resiste no indivíduo, mesmo depois que o sujeito se arrepende ou confessa seus erros, e que, segundo Freud se chama trauma, isto é, um fantasma que se torna o responsável pela manifestação que caracteriza a pessoa. É com esse ingrediente invisível, ausente, que Zizek afirma o complemento do ser humano.

Obviamente, o nome freudiano para esse resto “não-morto” é, repetimos, trauma – é a referência implícita a algum núcleo traumático que persiste como resto “não-morto” obsceno/monstruoso, que mantém “vivo” um universo discursivo – isto é, não existe vida sem o suplemento da persistência espectral obscena - não – morta do “morto vivo”. (ZIZEK, 2015, p.101).

Portanto, aqui vemos que o elemento mediador no indivíduo, sendo ausente, não pode ser controlado pela vontade do sujeito, pois se encontra em outra perspectiva, com outra visão e esta não permite a ampla liberdade do sujeito: “A aceitação do fato de que nossa vida envolve um núcleo traumático por trás da redenção, que existe uma dimensão de nosso ser que resiste para sempre à redenção e à libertação” (ZIZEK, 2015, p.101). 


O ser humano como alguma coisa que se divide entre dois opostos, de um lado, é destituído, inexistente ou vazio. Já seu oposto pode ser uma completude preenchida por sua genuinidade, que se satisfaz via representações e imagens. Para ilustrar esta ideia, Zizek cita Hegel, pois ele compara o homem à escuridão da noite, isto é, um nada que contém um tudo:  

O ser humano é esta noite, este nada vazio, que contém tudo em sua simplicidade - uma riqueza infindável de muitas representações, imagens, das quais nenhuma lhe pertence ou não estão presentes. (HEGEL in ZIZEK, 2015, p.104).

Ao nos sentirmos como nada, uma espécie de pessimismo e sentimento de inutilidade se mostra como horizonte. É neste espaço entre o vazio e a negatividade, que a inventividade humana trabalha como mediadora, isto é, ela busca imagens, lembranças, desejos, sonhos e os apresentam de forma brilhante ou podemos dizer também, em aspecto simbólico, é algo capaz de insculpir no indivíduo novas ações, mesmo que impossíveis de serem realizadas.
Em uma aparência sublime, o conteúdo imaginário positivo é um substituto do Além “impossível” (...) Em suma, no momento em que entramos na dimensão da aparência simbólica, o conteúdo imaginário é aprisionado/inscrito numa dialética entre o vazio e a negatividade (ZIZEK, 2015, p.106).

A qualificação da formação do indivíduo via elementos mediadores, tais como: traumas, imagens positivas, sublimes, simbólicas entre outras, dependem das trajetórias em que o sujeito escolhe para prosseguir. Estas opções agarradas pelo sujeito se apresentaram acompanhadas de diversas outras possibilidades de percursos que são dificultadas ou negadas a partir da concretização de uma dada preferência ou decisão.



[1] Slavoj Zizek, 2015, p.50.

Os Símbolos Como Espelhos Orientadores de Quem Realmente Somos

Este é o Artigo Nº3 da série "A construção do indivíduo pelo símbolo" um ensaio sobre a compreensão da visão humana e suas ações ou propósitos. Aqui o tema é visto segundo a teoria de Carl Jung

                                                                                               Joaquim Luiz Nogueira


Os Símbolos Como Espelhos Orientadores de Quem Realmente Somos

O homem se compensa através da fantasia[1]




O dispositivo humano responsável por configurar iniciativas e decisões, aquele que nos aponta direções, tem como alicerce uma estrutura invisível, cujos comandos ocorrem por sensações de medo, prazer, preocupações, sonhos e fantasias. Estas fontes que alimentam o corpo humano e que segundo Jung, preexistente ao corpo e seus órgãos, também significa, que independe do indivíduo para atuar.

A base instintivo–arcaica de nosso espírito é um fato objetivo, preexistente, que não depende de experiência pessoal nem de qualquer arbitrariedade subjetiva pessoal, tampouco quanto a estrutura hereditária e a disposição funcional do cérebro ou de qualquer órgão” (JUNG, 1986, p.25).

Tendo esta base estrutural fora do indivíduo, logo o corpo se torna um órgão receptor, cuja parte do comando parece ser algo externo a ele, o que pode explicar o fato do indivíduo ver se obrigado a fazer escolhas a cada instante de sua trajetória. Tais decisões são carregadas de potencialidades, sendo a maioria delas simbólicas, expressas como opções entre o Bem versos o Mal, ou melhor e pior. “Tudo o que é psíquico tem um sentido inferior e um sentido superior (...) e com isso tocamos o enigma do significado simbólico de tudo o que é psíquico” (JUNG, 1986, p.43). 
Estas sensações que chegam ao indivíduo, muitos classificam como instinto ou como derivações de experiências pessoais, Jung chamou de arquétipo, isto é, uma espécie de estampagem que o sujeito carrega através do sistema nervoso, isto é, uma capacidade para fazer escolhas por ele. “De fato, podemos constatar psicologicamente que um arquétipo é capaz de dominar o eu e, mesmo obrigá-lo a agir em seu sentido” (JUNG, 1986, p.57). 
O fato destas sensações serem sentidas a partir de evocações mentais, que também podem ocorrer por meio de situações especificas, por exemplo onde está presente o desespero, isto é, aquelas não planejadas pelo indivíduo, é esclarecido por Jung da seguinte maneira: “Trata-se, porém da energia inerente ao arquétipo ao inconsciente, como tal não está à nossa disposição” (JUNG, 1986, p.75).
E se o indivíduo pode contar com uma ajuda que ele desconhece, mas que lhe oferece socorro quando necessita, logo, passa a acreditar que não está desamparado neste mundo e até ir, além disso, ao incorporar aquilo em que confia ser. “Trazer um Deus dentro de si significa muito: é a garantia de felicidade, de poder e até de onipotência, uma vez que estes são atributos divinos” (JUNG, 1986, p.75).
Na história humana, como forma de elucidar estas incorporações, pode se observar os indivíduos que se apresentaram aos seus súditos como representantes de divindades, enquanto outros, disseram ser o próprio Deus aos seus comandados.

As ideias de deificação são antiguíssimas. Na crença antiga localizavam-se no período após a morte, mas o mistério já as contém neste mundo. Temos uma bela descrição num texto egípcio; é o canto triunfal da alma em ascensão: Sou o deus Atum, que só eu fui. Sou o deus Rê, em seu primeiro esplendor. Sou o grande deus, que se criou a si mesmo (JUNG, 1986, p.76).


O processo que transforma o indivíduo em um ser mais forte e confiante contrasta com a realidade na qual ele se reconhece fraco e inseguro. Para enfrentar os obstáculos, o sujeito incorpora qualidades necessárias, equivalentes, próximas de heróis ou deuses.

A deificação necessariamente tem por consequência um aumento da importância e do poder individual. Isto de início parece ser o objetivo: uma afirmação do indivíduo face a sua enorme fraqueza e insegurança na vida pessoal (JUNG, 1986, p.78).

Outro lado desta metamorfose ocorre quando o sujeito inicia sua segunda metade da vida, nesta fase, tende a se fechar em si mesmo, com isso, inverte a polaridade, as imagens que foram responsáveis pela maior parte de sua trajetória, aquelas que indicavam rumos e horizontes a partir de contextos externos, nesta etapa, a pessoa se recolhe com essas lembranças, numa espécie de paraíso da infância. 


Mas o reforço da personalidade é apenas uma consequência externa da deificação; muito mais significativos são os processos afetivos profundos. Quem introverte a libido, quem a desvia do objeto externo, sofre inicialmente as consequências inevitáveis da introversão: a libido, voltada para dentro do indivíduo, retorna ao passado individual e, do mundo das recordações, traz à tona aquelas imagens antigas que revivem os tempos em que o mundo ainda era cor de rosa. São, em primeiro lugar, as recordações da infância (JUNG, 1986, p.78).

As emoções da infância, uma vez integradas pelo indivíduo, se transformam em símbolo de força, sempre que esse ponto for iluminado pela consciência, dali são irradiadas inspiração e coragem. Neste aspecto, alguns valores desta fase lhe foram apresentados por figuras de heroísmo, cujo sujeito se espelhava por meio de imitações. Tais sentimentos que ampliavam a infância por meio de uma imaginação sem limites de inocência, carregavam também a fonte que se revelaria toda a sua existência, esclarecida por Jung da seguinte maneira: “Ainda não se deu conta que o homem, na figura divina, venera a energia do arquétipo. Este simbolismo aparece de modo extraordinariamente plástico” (JUNG, 1986, p.79).
As lembranças ou emoções da infância, ambas são apresentadas ao indivíduo como representações, espécies de ícones que conectam as necessidades das pessoas á uma força que transcende para além do sujeito. Uma ponte que se torna responsável pela ligação com o que de fato somos, ou seja, o lugar onde desejamos permanecer, cujo combustível é a autêntica emoção.

Mas só como um símbolo: ela reveste o arquétipo coma figura dos pais assim como explica a energia do mesmo com as ideias de fogo, luz e calor, fecundidade, força criadora, etc.(...). Aquilo que é visto como luz interior, como Sol do além, é o psíquico emocional (JUNG, 1986, p.79-80).


A comoção que nos prende apenas por alguns instantes por aquilo que desejamos, continua de forma incessante sua busca cada vez que o fio emocional é rompido. As maneiras de gerar as figurações entre o que temos e aquilo que nos fascina são infinitas, no entanto, pode ser citado como exemplos, entre tantas outras, as linguagens metafóricas, sons, sabores e imagens. observe este movimento na descrição de Jung: “A simbólica da libido não estaciona (...) mas dispõe de muitos outros meios de expressão” (JUNG, 1986, p.83)
Antes de prosseguirmos, vamos esclarecer um pouco sobre o conceito de libido, termo escolhido por Jung para se referir à energia psíquica, algo bastante abstrato até nos dias atuais, porém, nos estudos dele, o mesmo fez questão de explicar porque em alguns momentos, hipoteticamente preferiu chamar a energia vital ou bioenergia de libido:

Propus que a energia vital, hipoteticamente admitida, fosse chamada libido, tendo em vista o emprego que tencionamos fazer dela em psicologia, diferenciando-a, assim de um conceito de energia universal e conservando -lhe, por consequência, o direito especial de formar os seus próprios conceitos. Fazendo isto, não tenho a menor intenção de adiantar-me aos que trabalham no campo da bioenergética, mas tão – somente dizer-lhe com toda franqueza que empreguei o termo “libido” em vista do uso que dele faremos em nosso estudo. Para seu uso, esses estudiosos poderão propor, se o quiserem, os termos “bioenergia” ou “energia vital” (JUNG,2002, p.26)

Voltamos à infinidade de imagens arquivadas no psíquico humano, cujo acesso instantâneo pela consciência se dá por meio de uma espécie de leitura simbólica, isto é, uma metáfora que pode levar a uma diversidade de possíveis interpretações segundo as necessidades de cada indivíduo.
Esta multiplicidade de formas desencadeadas via imaginação do sujeito, levou ao longo da história das civilizações antigas a várias tentativas de padronizações das imagens mentais que seriam válidas ou verdadeiras em relação às inúmeras outras que formavam a gama simbólica, principalmente em termos religiosos, no caso do Antigo Egito:
Todos os símbolos, infinitamente diferentes, enquanto imagens da libido podem ser reduzidos a uma raiz muito simples: justamente à libido e as suas propriedades. Esta redução e simplificação psicológica corresponde ao esforço histórico das civilizações de unir e simplificar sincreticamente o infinito número de deuses. Já encontramos esta tentativa no Egito antigo, onde o incrível politeísmo dos diferentes demônios locais finalmente tornou necessária uma simplificação (JUNG, 1986, p.86).

A grandeza do astro celeste sobre a terra e as qualidades de sua luz juntamente com a criação da vida vegetal e animal, logo, por via analógica, se transforma na maior das divindades, aquela com a capacidade para unificar todas as demais sob seu poder visível, a coroa solar. “O deus se transforma no Sol, e com isso encontra uma expressão natural que está além da fragmentação moral do divino pai celestial e no diabo” (JUNG, 1986, p.109).
Neste aspecto, o indivíduo era movido por uma força impulsionadora, que no caso da Civilização Egípcia era o sol. Este astro celeste, analogicamente, assim como os humanos, produzia coisas úteis e nocivas, boas e más.
Também brilha igualmente para justos e injustos e faz crescer tanto seres úteis quanto nefastos. Por isso o sol é adequado para representar o deus visível deste mundo, a força propulsora de nossa própria alma a que chamamos de libido e cuja essência é produzir coisas úteis e nocivas, boas e más (JUNG,1986, p.110).

Desse modo, aquilo que nos empurra para frente, dá a partida, isto é, elemento disparador do indivíduo, que no caso físico, seria o coração. No lado psíquico, corresponde a algo que está ausente do sujeito e que segundo Jung pode ser: “fatos determinados pelos instintos ou pelos arquétipos e que não podem ser compreendidos mediante o princípio da causalidade” (JUNG, 2002, p.9).


No conceito de energia psíquica, o indivíduo seria construído via consequências de ações realizadas a partir de sua origem, transformações que estamparam nele sinais, cujos traços, manifestam de forma progressiva, numa tentativa de compensar o desequilíbrio inicial. Esse movimento é direcionado e irreversível no sujeito segundo Jung:

A consideração energética é essencialmente de caráter finalista, e entende os fenômenos, partindo do efeito para a causa, no sentido de que na raiz das mutações ocorridas nos fenômenos há uma energia que se mantém constante, produzindo, entropicamente, um estado de equilíbrio geral no meio dessas mutações. O desenrolar do processo energético possui uma direção (um objetivo) definida, obedecendo invariavelmente (irreversivelmente) à diferença de potencial. (JUNG,2002, p.13-14).

De acordo com Jung, o ponto de vista energético do indivíduo não tem nada a ver com qualidade, pois isso implica produto e substâncias, “mas unicamente com suas relações quantitativas de movimento” (JUNG, 2002, p.16). Desse modo, a medida numérica de realizações ou a persistência do sujeito em relação ao que deseja, indicam traços energéticos reparadores, advindos de sua origem.
Uma ação do indivíduo, na qual, o mesmo possa incorporar certa representação desejada, esta, passa também, a impulsionar ou determinar os rumos de sua trajetória. Tal força, segundo Jung, aparece também no campo religioso. “O arquétipo, como mostra a história dos fenômenos religiosos, tem efeito luminoso, isto é, o sujeito é impelido por ele como pelo instinto, e este pode ser limitado e até subjugado por esta força” (JUNG, 1986, p.145).
O sujeito que consegue direcionar sua energia psíquica para aquilo que ele realmente deseja e venera, torna-se alegre e dinâmica sua própria existência, pois para Jung, “Este mundo é vazio somente para aquele que não sabe dirigir sua libido para coisas e pessoas e torna-las vivas e belas para si” (JUNG, 1986, p.158).

Do ponto de vista biológico o indivíduo como ser único e isolado é algo fraco, portanto, necessita dos outros para sua existência. De outro lado, para que seja reconhecido como protagonista de alguma coisa, ele deve construir sua originalidade a partir de uma seleção de ações culturais e valores simbólicos, cuja prática dos mesmos lhes sirva como espelho a si e aos demais.

O homem como indivíduo é um fenômeno suspeito, cujo direito a existência poderia ser combatido sob o ponto de vista biológico, segundo o qual o indivíduo só tem sentido como ser coletivo, como elemento integrante da massa. Mas o aspecto cultural lhe confere um significado que o separa da massa e que no decorrer dos milênios levou à formação da personalidade, passo a passo com a qual se desenvolveu o culto ao herói. (JUNG, 1986, p.162).

É neste aspecto que o sujeito pode ver a imagem maravilhosa, o sonho, ou seja, aquilo que ele mesmo construiu via sua imaginação. E diante de seus gestos e palavras como participante do processo, ele representa os valores que desejaria na sua realidade, e esses, passam a refletir nele como revelações, ideais, potência e contornos, que de algum modo, estruturaram o indivíduo.

Sob a forma humana visível não se procura o homem, mas o super-homem, o herói ou o deus, justamente o ser semelhante ao homem, que exprime aquelas ideias, formas e forças que comovem e moldam a alma humana. (JUNG, 1986, p.163).

Trata-se de uma busca de ideais sonhados pelo indivíduo, cuja realização é algo incomum, próxima do mito ou desejo de se aproximar de uma estrela, porém, como representação, essa vontade se fixa no horizonte psíquico e reveste as ações, ora como lembranças, ora como ficções, espécie de farol que ilumina a consciência para uma busca ambiciosa e destemida, rumo a uma visão extraordinária e heroica.

Por isso os heróis sempre são semelhantes ao Sol. Por isso nos julgamos autorizados a concluir enfim que o mito do herói é um mito solar. Quer me parecer, contudo que ele é antes a auto-representação da nostalgia do inconsciente em sua busca insaciada e raramente saciável pela luz da consciência (JUNG, 1986, p.180).

Neste sentido, o indivíduo se assemelha a uma projeção, cuja fonte, mesmo distante dele, é capaz de apontar as direções possíveis via imagens psíquicas, isto é, representações simbólicas que alimentam e desencadeiam movimentos no corpo. Para Jung, “a única realidade é a libido, cuja natureza se revela através de nossas realizações (...) é a força criadora inconsciente que se oculta em imagens” (JUNG, 1986, p.212).
Para ilustrar a ideia de como a evocação por pensamento pode direcionar uma ação, Jung menciona um trecho bíblico de João 3:6 “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” No entanto, como psicanalista, ele traduz dizendo que se o indivíduo pensar de modo carnal, serás carne, mas se pensar simbolicamente será espírito “Na exortação de Jesus a Nicodemos encontramos esta imposição: não penses de modo carnal, pois então serás carne, mas pensa simbolicamente e então será espírito”! (JUNG, 1986, p.215).
 O pensamento simbólico para Jung é uma forma de elevação do sujeito, algo que o mesmo não conseguiria se ficasse preso ao concreto. Já a fascinação evocada pela forma metafórica promoveria a pessoa para pensar e agir de forma diferente:

É evidente quanto esta atração pele simbólico educa e promove o homem. Nicodemos permaneceria aferrado ao quotidiano grosseiro se não conseguisse elevar-se simbolicamente acima de seu concretismo. (JUNG, 1986, p.215).




Assim, podemos afirmar que as ações dos indivíduos possuem relações com aquilo que eles pensam. No caso de Nicodemos, segundo Jung, o que dificultava suas ações era o fato dele pensar grosseiramente, ou seja, de modo mal-educado e para que ocorresse a mudança, Jesus teria que o fazer pensar simbolicamente.
Quando se pensa numa linha próxima da prática cotidiana, a pessoa tende mais a resistir à mudança e não acredita que pode fazer de forma diferente. Isso gera um sentimento de que está preso para sempre numa missão tediosa.
No entanto, se o indivíduo conseguir pensar de forma simbólica, esta liberta o mesmo desta cadeia viciosa, cuja atração empírica não permite a saída psíquica e imaterial, capaz de criar novos horizontes, cujas forças sugestivas podem estruturar a mente de maneira diferente. Vejamos isso nas palavras de Jung:

A verdade empírica não liberta o homem de suas amarras sensuais, pois lhe mostra apenas que sempre foi assim e também não poderia ser diferente. Mas a verdade simbólica que coloca água no lugar da mãe, espirito ou fogo no lugar do pai, oferece uma nova saída à libido presa na assim chamada tendência incestuosa, liberta e a conduz para uma forma espiritual. (JUNG, 1986, p.216).

A passagem ou portal que liga o indivíduo a outra dimensão via símbolo se abre para pessoa a partir do momento em que ela apreende, isto é, o sujeito apodera-se dos valores no qual acredita. Para Jung, a fé é um carisma para aquele que a possui, porém, não é um caminho para aqueles que necessitam primeiro entenderem para depois acreditar: “Embora se acredite em símbolos natural e originalmente, também é possível entende-los, o que é o único caminho viável para aqueles que não têm o carisma da fé” (JUNG, 1986, p.220).

Estamos falando de um mecanismo capaz de fazer a ligação entre aquilo que o indivíduo presencia com a coisa almejada por ele como ideal para cada situação vivenciada. Este recurso é o símbolo, um elemento de personificação, cuja força de atuação ocorre de forma psicológica, sendo responsável pelas conquistas pessoais.

O símbolo, observado sob o ponto de vista do realismo, não é uma verdade concreta, mas psicologicamente ele é verdadeiro, pois foi e continua sendo a ponte para as maiores conquistas da humanidade (JUNG, 1986, p.220)

Tais categorias de sugestões ditadas ao indivíduo por meio de símbolos são totalmente dependentes da experiência pessoal e única de cada sujeito. É a experiência que faz a conexão entre a realidade e a ação prática, espécie de força movida e estruturada por símbolos, cuja função amplificadora, transforma e conduz a pessoa de uma dimensão insignificante para grandezas idealizadas em cada momento de sua trajetória.

Os arquétipos são elementos estruturais numinosos da psique e possuem certa autonomia e energia especifica, graças à qual podem atrair os conteúdos do consciente a eles adequado. Os símbolos funcionam como transformadores, conduzindo a libido de uma forma “inferior” para uma forma superior. (JUNG, 1986, p.221)

É muito comum ouvirmos de uma pessoa após alguma decisão ou ação que tenha sido muito significante para determinada situação: tive uma ideia ou me veio uma sugestão naquele instante. Para Jung, “O símbolo age de modo sugestivo, convincente, e ao mesmo tempo exprime o conteúdo da convicção. Ele age de modo convincente graças ao número, que é a energia especifica própria do arquétipo” (JUNG, 1986, p.221).
Tais recomendações que surgem de forma espontânea ao indivíduo, porém, persuasiva o bastante para que ele obedeça, é algo, que conscientemente, nem o próprio sujeito reconhece como fruto de sua autoria, mas fala como se tais sugestões tivessem sido originadas do nada.
Como essas opiniões chegam ao indivíduo com forte convicção, semelhante aquilo que chamamos de fé, logo, podemos investigar sua origem advinda de elementos que estão fora do sujeito, tais como força da herança cultural, cujo contexto vivenciado pela pessoa lhe impõe obrigações na qual, ela não tem como fugir da autoridade da tradição.

A fé “legitima” sempre remonta à vivência.  Mas existe ainda uma fé baseada exclusivamente na autoridade da tradição. Pode se considerar também esta fé como “legitima”, pois também a força da tradição representa uma vivência cujo valor para continuidade da cultura está fora de dúvida. (JUNG, 1986, p.221)

De outro lado, esta autoridade de uma suposta tradição parece que não se sustenta por muito tempo, já que o ser humano, segundo Jung, pode ser possuído pela inércia, espécie de preguiça mental, na qual joga o mesmo de volta para infantilidade. Desse modo, os valores da tradição pode até continuar, porém, não fazem mais sentido nenhum para o indivíduo, que se lança numa busca constante de outros sentidos para sua vida.

Mas nesta forma de fé existe o perigo do simples hábito, da preguiça mental, da inércia cômoda e estéril, que ameaça uma parada e um consequente retrocesso da cultura. Esta dependência, que se tornou mecânica, anda passo a passo com uma regressão psíquica para infantilidade. Os conteúdos tradicionais pouco a pouco perdem seu verdadeiro sentido e só são mantidos formalmente, sem que esta forma de fé ainda exerça qualquer influência sobre a vida (JUNG, 1986, p.221)

Esta nova procura do indivíduo não pode ser apenas fruto de sua racionalidade, para Jung, “O homem não pode transformar – se em alguma coisa exclusivamente pelo raciocínio, mas apenas naquilo que já está em potencial dentro dele” (JUNG, 1986, p.225-226).

Novamente, temos aqui a sensação de que a construção do indivíduo está ausente dele, pois, de acordo com certas necessidades, ocorrem transformações em níveis de arquétipos inconscientes, que segundo Jung, pode ser mudanças que aos poucos, o consciente do indivíduo começa a interpretar essas tais orientações e colocá-las em pratica na vida.

Se uma tal transformação se torna necessária, a adaptação mantida até agora e que pouco a pouco se desfaz é compensada inconscientemente pelo arquétipo de uma outra forma de adaptação. Se o consciente conseguir interpretar o arquétipo constelado quanto ao sentido e de maneira apropriada, ocorre uma transformação compatível com a vida (JUNG, 1986, p.226)

Outra explicação, mais fácil de compreensão destas sugestões que impulsionam o indivíduo vem do conceito de magia, que se trata da criação de eventos, cuja função, seja produzir expectativas. Trata-se do uso de analogias, sendo que estas produzem perspectivas, espécie de energia que alimenta através de oferecimento de possibilidades, cujo valor, pode ser capaz de estimular a imaginação a ponto de uma incorporação prolongada do mesmo pela mente do indivíduo.
A primeira produção de trabalho arrancado pelo homem primitivo da força instintiva mediante a criação de analogias foi a magia. Uma cerimônia é mágica, quando não é executada para se obter uma produção efetiva de trabalho, mas permanece no estado de expectativa. Neste caso, a energia é canalizada para um novo objeto e produz um novo dinamismo, que, por sua vez, permanece mágico enquanto não realiza trabalho efetivo. A vantagem que advém de uma cerimônia mágica é que o objeto recém – ocupado, adquire uma possibilidade de atuação em relação à psique. Por causa de seu valor, ela produz um efeito determinante e estimulador sobre a imaginação, de sorte que a mente é fascinada e possuída por ele por um tempo prolongado (JUNG, 2002, p.54).



Podemos pressupor que os indivíduos são alimentados por imagens, sons e sabores, entre outros, cujos sentidos, sentem e prolongam tais efeitos, criando estruturas mentais ou simbólicas, verdadeiros mapas conceituais que passam a orientar as pessoas em suas palavras e decisões.


[1] C.G. Jung. Símbolos de Transformação p.22

Nascimento do pensamento religioso no Oriente



Nascimento do Pensamento Religioso do Oriente[1]
Joaquim Luiz Nogueira

O eterno retorno das formas imutáveis ao longo do tempo: rotação diária do sol; O crescer da lua; morte e renascimento no mundo agrícola, todos esses fenômenos representam milagres para povos da antiguidade. Encontrar o ponto imóvel da eternidade em volta do qual tudo girava, significava: “onde tudo é aceitável da maneira como é, e assim, pode ser vivenciado como magnifico e maravilhoso”.
O indivíduo deve apenas exercer o papel que lhe foi atribuído, semelhante ao sol e a lua, aos animais e vegetais ou a água, rochas e estrelas. Não deve apresentar resistência, nem se negligenciar para identificar sua consciência com o princípio contido no todo. O encanto onírico desta tradição contemplativa por meio da orientação metafisica, cuja luz e as treva dançam juntas e que os arquétipos sem-tempo do princípio mitológico do um que se tornou dois estabelece que o indivíduo não é mais do que uma folha caída.
Do ponto de vista psicológico retira-se o foco da mente no individual para colocá-lo no grupo que permanece, isto é, do ponto de vista mágico que reforça a vida perene em todas as vidas, que parece muitas, mas na verdade, são uma só, a fonte divina. Tal comunhão contemplativa, ao identificar sua consciência com o princípio contido no todo, pregado no Bhagavad Gitã, isto é, no retorno ao estado sem ego, ou seja, antes da individualidade, quando o um se tornou dois:
"No princípio”, afirma   um   exemplo indiano de   c.700 a .C, preservado no Brhadaranyaka Upanisad
Este  universo  não  era   nada   senão  o  Si-Próprio  na  forma   de   um   homem .Ele   olhou  em   volta  e   viu  que   não  havia   nada   além   de  si  mesmo,  de maneira  que seu primeiro grito foi: "Sou Eu!", e  da í surgiu o conceito "e u".( E  é   por  isso  que,  até   hoje,  quando  interpelados  respondem os  antes  "sou eu! ", e só de pois damos o nome pelo qual atendemos) (CAMBPBELL, p. 18)
Esta mudança da identificação com o todo, cujos reis eram personificados como divindades na terra (caso da Suméria até 2350 d.C.) e na Índia, este ritual com sacrifico humano para agradar as divindades chegam até 1830 d.C. Tal abordagem  é substituída pela Relação, nesta, o homem não é mais Deus, mas feito para conhece-lo, honrá-lo e servi-lo, oferecendo sacrifícios em honra a Deus. Criador e criatura se separam, o homem apenas fica com a visão do deus perdido que estava nele, um processo de afastamento da visão anterior de ciclos repetidos, da criação feita no principio e de uma única vez e para sempre, seguida por uma queda.
Surge a orientação temporal, não mais o mundo como eternidade, mas como um campo de conflito cósmico entre as forças da luz e das trevas. O símbolo desta nova tradição é Zoroastro (profeta persa) que pregava o conflito entre o senhor do bem Ahura Mazda, o primeiro rei da ordem justa, aquele que determinou o rumo do sol e das estrelas contra o Mal, representado por Angra Mainyu, aquele que havia se infiltrado em cada partícula da criação.
Na profecia de Zoroastro, afirmava que ele havia nascido 12 mil anos após a criação do mundo e quando ele retornasse, isto é, 12 mil anos depois, voltaria na pessoa do Messias Saoshyant para travar a batalha final e a conflagração cósmica do bem:
O zoroastrismo possuiu um sentido ético e social, e também um sentido profético, pois admitiu a vinda de um messias, chamado Saoshyant. Ele seria gerado por uma virgem e aconteceria um juízo final com a queda definitiva de Arimã[2]. Assim, o masdeísmo demostrou um nível de moralidade elevado, através da sua regra de ouro, só é bom aquele que não faz ao outro o que não for bom para si mesmo. Com o tempo, a religião persa sofreu influência de outros povos e culturas, contudo, podemos perceber que o zoroastrismo influenciou também o judaísmo, cristianismo e islamismo.
Nesta nova reorientação do espirito humano, o homem é convocado para assumir uma responsabilidade autônoma pela renovação do universo em nome de Deus. Uma nova política não contemplativa, porém, uma filosofia de guerra santa, que nasce na Pérsia, cuja oração pregava aos seguidores: “seja a renovação e o progresso deste mundo, até que a perfeição seja atingida”.
O Império Aquemênida de Ciro, o Grande, morto em 529 a.C. foi o primeiro seguidor desta renovação, substituído por Dario I (521 – 486 a.C.) Este último ofereceu proteção aos hebreus no pós-êxodo para reconstrução de seu templo (Ezra 1: 1-11):
No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo:
Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá.
Quem há entre vós, de todo o seu povo, seja seu Deus com ele, e suba a Jerusalém, que está em Judá, e edifique a casa do Senhor Deus de Israel (ele é o Deus) que está em Jerusalém.
E todo aquele que ficar atrás em algum lugar em que andar peregrinando, os homens do seu lugar o ajudarão com prata, com ouro, com bens, e com gados, além das dádivas voluntárias para a casa de Deus, que está em Jerusalém.
Então se levantaram os chefes dos pais de Judá e Benjamim, e os sacerdotes e os levitas, com todos aqueles cujo espírito Deus despertou, para subirem a edificar a casa do Senhor, que está em Jerusalém.
E todos os que habitavam nos arredores lhes firmaram as mãos com vasos de prata, com ouro, com bens e com gado, e com coisas preciosas; além de tudo o que voluntariamente se deu. Esdras 1:1-6
Assim, os hebreus foram responsáveis por uma segunda onda da manifestação desta filosofia de guerra santa ou de renovação do universo pelo homem em nome de Deus,
 Uma terceira foi o cristianismo (Isaias 54:2-3) por volta de 546 – 536 a.C. evangelho pregado como testemunho para todas as nações, assim como em (Mateus 24:14 em 90 d.C.
Amplia o lugar da tua tenda, e estendam-se as cortinas das tuas habitações; não os impeças; alonga as tuas cordas, e fixa bem as tuas estacas.
Porque transbordarás para a direita e para a esquerda; e a tua descendência possuirá os gentios e fará que sejam habitadas as cidades assoladas. (Isaías 54:2,3)
E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim. (Mateus 24:14).
Em quarto, temos o Islamismo e o Alcorão (2:191 – 193) em 623 d.C.
 “Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos. Porém, se desistirem, sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. E combatei-os até terminar a perseguição e prevalecer a religião de Deus. Porém, se desistirem, não haverá mais hostilidades, senão contra os iníquos.” Alcorão (2:191-193)
Desse modo, O homem passou a conhecer o Bem e o Mal: “ Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, Gênesis 3:22” 
Na bíblia, temos a separação entre o homem e Deus, portanto, ele passa a não fazer parte de todas as coisas como o Deus anterior e agora, tem que conhecer a sua relação com o criador e depois buscar sua religação com Deus. Para Campbell:
 “Na bíblia, entretanto, Deus e homem, desde o início, são distintos. De fato, o homem é feito a imagem de Deus e o sopro de Deus foi insuflado em suas narinas; mas seu ser, o seu Si-Próprio, não é o de Deus, nem tampouco é o uno com o universo. A criação do mundo, dos animais e de Adão (que então se tornou Adão e Eva), foi realizada não dentro da esfera da divindade, mas fora dela. Há, consequentemente, uma separação intrínseca e não apenas formal E o proposito do conhecimento não pode ser contemplar Deus aqui e agora em todas as coisas. Pois Deus não está nas coisas. Deus é transcendente. Apenas os mortos veem Deus O propósito do conhecimento tem que ser, antes, conhecer a relação de Deus com sua criação, ou mais especificamente, com o homem, e através de tal conhecimento, pela graça de Deus, religar a própria vontade de cada um com o criador (CAMPBELL, p.18-19)




[1] Mitologia Oriental – Joseph Campbell p´13 -17.

Livro: A construção do Indivíduo pelo Símbolo

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