O ser humano e a realidade fantasmática

                                                                                                                Joaquim Luiz Nogueira 




O ser humano enquanto aquele que tem como pretensão a ideia de que vive num tempo real, talvez devesse buscar entender um pouco mais sobre o quanto ele é dependente do elemento mediador ou da linguagem simbólica para avançar neste processo pulsante que se denomina como vida.

O simbólico mostra para o ser humano o peso daquilo que lhe está ausente, a ferida aberta, o grito que tenta organizar indicando o rumo. É a voz que segundo Jaques Lacan, denomina-se de o grande Outro, sendo a fala advinda da cultura, família, tradição, entre outras destes segmentos.

O clamor daquilo que está ausente no ser humano e que se torna uma espécie de elemento responsável pelo seu movimento de corpo, assim como, pela organização de sua rotina, transforma o ser vivente em algo que nunca está completamente satisfeito, por mais que faça, algo está sempre faltando.

O problema está na sua incapacidade de capturar por completo aquilo que sua imaginação anseia e até visualiza em imagens deslumbrantes, porém, não consegue dar conta da compreensão desta linguagem que está além de seu limitado corpo. Lacan chama isto de real ou resíduo que não pode ser eliminado, nem capturado.

E por último, o ser humano que pensa ser o construtor de seu caminho, portanto, com seu esforço, ele cria toda uma gama de objetos materiais, e assim, cerca seu espaço com relações de proximidades com a realidade imaginada. Dessa maneira, sua realidade fantasmática se aproxima da realidade por meio da representação ou da interpretação de papéis ideais.

Tanto o cenário do mundo, tal como o corpo, ambos são bastante frágeis para abrangência de uma imaginação tão fértil, o que indica vestígios que o real que não damos conta de capturar e nos empurram para uma realidade fantasmática, de algum modo, também, testemunhe certo vínculo, talvez, o avatar de si mesmo, que comanda de outro tempo e espaço.

Fotografia, imagens e símbolos.



                                                                                                           Joaquim Luiz Nogueira 

Segundo Jean - Marie Floch, a fotografia pode ser analisada de forma referencial ou interpretativa, assim como de forma construtiva numa visão utópica ou mítica.  Para Philippe Dubois, o referente real é sentido como dominante na fotografia, pois como afirma Barthes, ela é emanação do referente. Na linguística, o referente significa: o elemento do mundo extralinguístico, real ou imaginário, ao qual remete o signo linguístico, num determinado contexto sociocultural e de discurso.
A interpretação da fotografia a partir do ângulo das aparições do referente é descrita por Roland Barthes no seu livro Câmara Clara, Dessa forma, temos as seguintes modalidades denominadas de choque ou surpresas: raridades, gestos decisivos, proeza, técnica e descoberta. Elas são rupturas de expectativas ou surpresas perceptivas.
Para Barthes, a fotografia é “convivência de contrários”, que se estende desde o nível de materialidade mais evidente até o nível de maior complexidade e abstração. Os pontos de vista do fotógrafo de acordo Lucia Santaella: são sempre histórica e culturalmente convencionados.
A foto como fragmento,segundo Santos Zunzunegui no livro Pensar la imagen,  também significa a eleição de um espaço que se decide mostrar e a eliminação do espaço que fica além dos limites  do enquadramento. Sontag, afirma que o triunfo da foto está em descobrir a beleza no humilde, no inepto e no decrépito. Para ela, fotografar é redimir o simples, o banal e o modesto, ou seja, ampliar a realidade inacessível.
Santaella nos lembra que fotografia é registro e traço,algo que mostra a realidade como jamais havia sido vista antes. Ela é vestígio e revelação, significa o aspecto diferente que as coisas têm quando fotografadas. Jean  Arrouye fala que “a fotografia desborda o real de sua realidade”, pois segundo Susan Sontag, alteram nossa apreensão da realidade e também cria novos modos de produzir e interpretar as próprias fotos.
De acordo com Dubois, a força que trabalha subterrânea na fotografia e que  está por trás das aparências, é a mesma que funda o desejo humano. É uma presença afirmando uma ausência, e esta última, afirmando a primeira. Dessa maneira se constitui segundo ele, o próprio desejo ou o milagre.
Para Santaella, a fotografia é o acesso instantâneo ao real. Pois Sontag nos fala que possuir o mundo sob forma de imagem é voltar sentir a irrealidade e o afastamento do real. Significa reabrir uma brecha de nossa alienação, que em primeiro lugar tomamos distância para o encontro com o real que se revela de forma exorbitante, mas na fotografia, o distante, o afastado ou perdido não se incorpora.
Na fotografia, duas forças antagônicas coexistem segundo Santaella, seria o movimento de atração ou fusão com o real e o movimento de recuo, ou seja, separação e corte. Para Dubois, a fotografia se emana do objeto, mas permanece separada dele, trata-se do limite entre o real (objeto) e sua representação (fotografia) algo que é intransponível, ou seja, uma separação entre o ali daquilo que ele (objeto) indica e o que está nele representado.
A fotografia é o poder humano de duplicar as coisas visíveis de acordo com Zunzunegui, reprodução imagética do visíve ou povoamento de duplos, réplicas do imaginado e do invisível. Para Santaella, fotografia é um signo, pois referencia aquilo que está fora dela e que ela registra, Isto é, tem relação com aquilo que é por ele (signo) indicado ou que está nele representado.   
De acordo com Santaella, a fotografia funciona como signo porque ela representa, substitui, registra e está no lugar de alguma coisa, que não é ele (signo) próprio. Dessa maneira, Santaella completa, os signos e, entre eles, as imagens, são mediações entre o homem e o mundo.
O homem acrescenta Santaella, devido à sua natureza de ser simbólico, de linguagem e falante, a ele, não é nunca facultado um acesso direto e imediato ao mundo. Tal acesso é mediado por signos e suas modalidades, entre elas, a imagem, pois têm o propósito e a função de representar e interpretar a realidade. Vilém Fluser nos fala que signos possuem função de mapas.    
Segundo Santaella, a fotografia tem o caráter de imortalidade, já que cria a onipresença latente, algo fora do tempo e do espaço, em qualquer lugar, em qualquer momento.   Para ela, o objeto fotografado é tragado de outro mundo, significa a morte de um instante capturado de outro tempo, cuja duração é infinita, indeterminada e eterna. O signo, afirma Santaella, pode estar no lugar do objeto, pode indicar o objeto, pode representar o objeto, mas não pode ser o objeto. O signo pode ser até mesmo uma emanação do objeto, mas o objeto continua a ter uma existência independente.      
As imagens se tornam símbolos de acordo com Santaella quando o significado de seus elementos, só pode ser entendido com ajuda do código de uma convenção cultural, assim, primeiro vem o veiculo do signo, depois vem o objeto (que é secundário ou surreal), depois temos a convenção cultural (terceiro ou interprete).
Neste aspecto, a imagem simbólica, segundo Santaella, uma vez degenerada na direção da secundidade é a pintura surrealista. Da mesma maneira, que os símbolos do sonho são, assim, estruturas indexicais da psique, associações das afirmações dicentes (é aquele que aprende) na relação do interpretante da imagem dos sonhos.   

Fonte: SANTAELLA, Lucia e NÖTH, Winfried. IMAGEM, Cognição, semiótica, mídia. 2. ed. São Paulo: ILUMINURAS, 1999.

A fotografia e o ponto de vista do fotógrafo

Foto: Maria do S. Delfiol Nogueira 

                                           
                                                                                                                       Joaquim Luiz Nogueira


A fotografia acima, sendo analisada como recorte, espécie de janela, cujo foco de enquadramento configura a sombra como base física, que mesmo rompida pela linha reta branca e o cinza escuro, permitem o aparecimento de faixas amarelas, e estas, contrastam com a cor da faixa abóbora entrecortada para prolongar a visão em três direções: o contínuo da estrada, a exuberância das cerejeiras e o infinito do céu azulado.
A estrada registrada como base de sustentação, espécie de início em uma mistura de escuridão e relances de raios solares que atravessam no sentido vertical e ao mesmo tempo, chamam a atenção para existência de outra presença e quebra a linha reta branca que direcionava o olhar para o distante ou aquilo que estava indefinido.
Do encontro das luzes amareladas com as sombras, o olhar se deleita com as cores contrastantes que passam do escuro para o verde, sendo completado pelo rosa iluminado dos galhos das cerejeiras, que sem folhas, deixam a visão escapar por pequenas janelas, exibindo um fundo de céu azulado, que diverge com o outro lado da cena fotográfica.
Este fundo de céu azul sob o enquadramento da fotografia contribui para dimensionar os aspectos da profundidade, que guiadas pelas contradições de luz e sombra, esquerda e direita, tem nas cores continuas das faixas brancas e laranjas, um ideia de sentido, logo rompida pelos pequenos relances de raios solares que cruzam a estrada e retiram o olhar desta direção linear e apontam uma riqueza de cores e possibilidades que caminham de forma paralela a esta estrada.  
As observações foram elaboradas segundo as teorias de Jean Marie Floch e Algirdas Julius Greimas.

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